Uma menina DUK7, em três atos

A hipótese era simples: quem mora num lugar interessante provavelmente escolheu o lugar por ser interessante, então talvez a própria pessoa também seja interessante. Muito interessante em uma frase só, mas foi assim que surgiu a ideia de tentar conhecer moradores de prédios icônicos do Centro de São Paulo. Sabendo da minha busca, um amigo indicou […]

A hipótese era simples: quem mora num lugar interessante provavelmente escolheu o lugar por ser interessante, então talvez a própria pessoa também seja interessante. Muito interessante em uma frase só, mas foi assim que surgiu a ideia de tentar conhecer moradores de prédios icônicos do Centro de São Paulo.

Sabendo da minha busca, um amigo indicou uma amiga que mora no edifício Cícero Prado, na av. Rio Branco, o bonitão aí da foto abaixo. Trocamos mensagens e combinamos uma visita. Ela me recebeu linda e sorridente em seu apartamento de 200 m2 e já avisou: “eu falo demais. Se estiver falando muito, pode me interromper”. Certeza de que teria um zilhão de histórias ali. E tinha. Fiquei tentando escolher quais entrariam neste post.

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Foto: Milene Leonel, do site Prédios de São Paulo

Aí me lembrei da maravilha que é o espaço infinito do mundo digital e resolvi colocar (quase) tudo. “Mas Alessandra, as pessoas só lêem textos curtos!”. Dane-se, certo? Este é um texto comprido, mas vou tentar ser o mais envolvente possível, principalmente porque a entrevistada merece. Convido vocês a conhecer a Raquel Vallerini em 3 atos e juro que a leitura não leva mais do que 5 minutos.

1) Quem e por quê

A Raquel mudou de Piracicaba para São Paulo aos 17 anos, para fazer faculdade. Formou-se em artes plásticas e hoje, com 32, é diretora de arte de uma agência publicitária.

Mas, Raquel, como você veio parar no Cícero Prado?

“Sempre morei com amigos e sempre gostei muito do centro, mas rolava uma tensão, medo do centro, violência, cracolândia… Aí fui fazer um curso na Galeria Olido [na av. São João],  olhava aqueles prédios incríveis, todos pichados, e achava o máximo. Um amigo de infância estava morando em um flat bem na frente do Cícero Prado e falou que os apartamentos não eram muito caros, que estava meio desvalorizado.”

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“Encontramos um à venda por um preço muito bom porque a dona estava com pressa. Ela viveu aqui por mais de 40 anos, sou a terceira moradora. Eu e meu amigo compramos o apartamento juntos, em 2011, e fizemos uma mega reforma.” Amigos que COMPRAM apartamento juntos? “É, e é só amigo mesmo. Depois veio mais um amigo morar com a gente e hoje nós três somos tipo uma família, a gente espera uns aos  outros para comer, inventa uns jantares temáticos, se intromete um na vida do outro, briga, temos essa rotina bem família.”

Ah, não podemos esquecer do Nego, o cachorrinho fofo dessa família heterodoxa (e qual família não é heterodoxa, não é mesmo?).

2) No Porão da Vanusa

Logo fico sabendo que o apartamento tem sua própria identidade: “É o Porão da Vanusa, porque a [cantora] Vanusa mora exatamente no apartamento de cima. Esse até é o nome da rede wi-fi!”

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Só que a relação com a Vanusa foi muito além da rede de wi-fi: “quando mudei para cá ela veio tomar um café comigo. Foi um papo de vizinha mesmo, mas nos demos super bem e ela vinha aqui, participava dos nossos jantares temáticos, ela foi para Piracicaba, na casa dos meus pais, ficamos bem próximas.”

Olha aí a Vanusa com a “família” completa: Raquel, Nego e os roomates, Felipe e Bissi. No insta da Raquel tem várias outras fotos legais, é só seguir lá!

De vizinha para amiga foi um pulo e de amiga para trabalhar juntas foi outro pulinho. No ano passado, o Zeca Baleiro chamou a Vanusa para gravar um álbum, o primeiro de músicas inéditas em 20 anos. “Nós começamos aos poucos, mas montamos um time super profissional, tudo amigo que já tinha trabalhado junto. Ajudamos a lançar o CD em redes sociais e até nuns eventos. Eu chamei umas amigas de publicidade para fazer a comunicação e consegui uns contatos para fazer cabelo e maquiagem, até um amigo que é personal stylist topou ajudar.” Várias entrevistas foram gravadas no apartamento da Raquel, assim como o vídeo de divulgação abaixo, com participação especial do Nego.

“Fizemos uma campanha muito legal no facebook da Vanusa, o #loucurapelavanusa. Os fãs enviavam histórias deles relacionadas à Vanusa e ela mesma escolheu as 20 melhores histórias. Esses fãs ganharam a caixa do CD com uma surpresa, que era uma mechinha do cabelo dela. No fim, foi uma vizinha que mudou minha vida de várias maneiras.” Vocês podem ver a revelação neste vídeo.

Nem preciso dizer que eu mesma aproveitei a ocasião para conhecer melhor o trabalho da Vanusa e escrevi o post o ao som desse novo CD. Dá para ver no YouTube o videoclipe de O Silêncio dos Inocentes, do Zé Ramalho. Minha preferida, no entanto, é Esperando Aviões, do Vander Lee, lindamente dramática.

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Não podemos esquecer dos créditos a quem trabalhou junto com a Raquel nesse lançamento. O personal stylist é o Ricca Benozzatti, bem conhecido no meio, e o salão de beleza é o I Love Me. Ira Croft fez os conteúdos e social media, com redação de Catarina Menchick.

3) Baterista DUK7

“Eu sou quase uma acumuladora, gosto de guardar várias coisas, como brinquedos de infância. E nisso também acabo me lançando nuns projetos. Um dia passei na Galeria do Rock e comprei um monte de fitas K7. Fiz uma cadeira, um abajur, uma mesa… Aí as pessoas gostaram e começaram a pedir.”

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Só um parêntesis: eu também pirei nos móveis e quase saí de lá carregando um deles disfarçadamente. Se quiserem conhecer mais, é só acessar a página dela no face, a DUK7.

“Bom, nessa de ter um monte de brinquedo guardado, comecei a trabalhar o desapego. Eu tinha uma boneca Susi, da Estrela. Coloquei na OLX para vender e pipocou um monte de oferta. Aí resolvi avaliar de verdade aquilo e fui atrás de alguém que entendia do assunto. Conheci um menino que tinha uma loja desses brinquedos de colecionador. Ficamos amigos [que dúvida, né?] e troquei um monte de brinquedos por uma caixa de fitas K7 e uma bateria.” Uma bateria, Raquel? “É, eu tinha essa frustração de criança, que queria tocar bateria e meu pai dizia que não era instrumento de menina.” Gente, e ela tocou de verdade ali na minha frente, não era só charme, não.

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No fim, me despedi com aquela sensação de que queria ficar amiga da minha entrevistada e, munida dessa cara-de-pau inata, pedi um convite para o próximo jantar temático.

Ahhh, um último adendo importante! O prédio em que a Raquel mora e que foi, pelo menos no começo, o mote para toda essa conversa aqui.

Condomínio Albertina, Cícero Prado e Cecília, o Cícero Prado

Projetado por Gregori Warchavchik, um arquiteto russo naturalizado brasileiro, foi construído em 1954 e tem 3 blocos de apartamentos. A foto da escada é um clássico. Linda mesmo. Tudo um charme.

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Gostou? Vou falar uma coisa: a maior tristeza de blogueiro é a solidão. Deixe um comentariozinho aí, para eu saber que alguém leu. Pode ser até crítica, naquela linha “falem mal, mas falem de mim”. Se você conhecer alguém que more em um desses prédios bacanas aqui do centro do São Paulo e quiser indicar para eu fazer mais um post, também ficarei agradecida demais da conta!

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